Memória Televisiva

Remakes: provocam ódio em uns e paixão em outros

Quando é noticiado que tal novela clássica, terá um remake, o telespectador apaixonado pelo gênero
telenovela, formam grupos contra e a favor. Os contra já dão uma de profetas, e apostam no
fracasso. Ou já começam a criticar as comparações quando atores vão sendo anunciados pra
personagens que foram desempenhados por outros atores que hoje poderiam ser pais ou avôs de tais figuras. E os que são a favor do remake, se anseiam com a novela. Ficam atiçados com a
oportunidade de verem aquela novela clássica, com novo visual, nova tecnologia, e possibilidade de
ter um novo final.

Quem viu o original, quase sempre questiona a nova versão. Fazem comparações. Pra mim, foi
difícil ver ÉRAMOS SEIS na versão da Globo, porque minha memória afetiva estava focada na
versão do SBT, de 1994. Lembro que nessa época, eu ouvia as pessoas criticarem o remake do SBT,
porque lembravam demais da versão da TUPI, de 1977. No mesmo ano, ouvi gente criticando A
VIAGEM, porque achavam a versão da TUPI, melhor.

Lembremos que ÉRAMOS SEIS, SINHÁ MOÇA, CABOCLA, O MEU PÉ DE LARANJA LIMA, são obras televisivas que foram inspiradas livremente em romances literários, homônimos. Os autores tiveram liberdade criativa para criarem situações novas pra essas tramas. O romance ÉRAMOS SEIS, por exemplo, há algo curioso: a trama é frágil demais se fosse seguida fielmente na versão televisiva (não duraria nem 20 capítulos).

O que vimos na novela de tanta riqueza de detalhes de personagens, não está no livro. O mesmo
ocorre em O MEU PÉ DE LARANJA LIMA. Quase nada dali, se relaciona com a linguagem
televisiva. Com a criação dos adaptadores.

Há remakes que fogem tanto do original, que acaba sendo uma nova história. Em nada lembra o
original. Foi o caso de O PROFETA, que se passou nos anos 1950, diferente do original,
contemporâneo. O mesmo ocorreu, mas inversamente com O SEXO DOS ANJOS, remake de O
TERCEIRO PECADO, que era de época. Ivani Ribeiro, autora dessas tramas, foi a que mais
adaptou suas próprias novelas, tirando situações e acrescentando outras, para diferenciar seus
originais dos remakes. Já nos remakes das obras de Benedito, o próprio auxiliou as filhas, os
netos…

O problema é quando um autor adapta uma novela de um outro autor, que já é falecido.
Parece que a cobrança do público é maior. Nem sempre o remake dá certo. Ao adaptar PECADO
CAPITAL, Glória Perez criou tantos personagens novos, que descaracterizou a novela escrita por
Janete Clair, de quem fora aluna. IRMÃOS CORAGEM, adaptada por Dias Gomes nos primeiros
capítulos, foi um caso de fracasso à parte, pois na verdade, não houve uma adaptação. Não houve
atualização da história.

Se já era absurdo em 1970, época do original, um jogador de futebol de
renome, manter a família humilde morando num rancho; imagina em 1995? O problema mental da
tripla personalidade de Lara, ganhou resolução cirúrgica, quando o correto seria a resolução num
tratamento psicológico. O faroeste da trama, que puxava bastante para o público masculino, no
horário das seis, e ainda durante o horário de verão; também foi algo que prejudicou o remake. O

mesmo ocorreu com GUERRA DOS SEXOS. Não houve grandes alterações. A base da história
nem fazia mais sentido. O próprio Sílvio de Abreu disse que a trama de JOGO DA VIDA era
melhor do que a de GUERRA DOS SEXOS, mas esta ficou mais conhecida pela renovação do
humor na TV naquela época (1983).

Há tramas também que são tão datadas, que se torna difícil se fazer um remake. É preciso mudar
muita coisa. Às vezes acaba se fazendo uma outra novela. Maria Adelaide Amaral que o diga…
Quando adaptou ANJO MAU, de Cassiano Gabus Mendes, relatou que havia, no original, cenas
longas de personagens discutindo o preço dos legumes na feira. O personagem Rodrigo, com sua
indecisão em três amores, já era chata em 1976. No livro AUTORES – HISTÓRIAS DA
TELEDRAMATURGIA, Adelaide relata o que teve que mudar pra dar um novo ar para a novela,
que no original terminou com a protagonista, Nice, a babá, morrendo. Algo que ela achou um
absurdo.

Há remakes que misturam duas obras do mesmo autor, para dar uma liga melhor. Foi o que ocorreu
com OS OSSOS DO BARÃO, inspirada numa peça teatral homônima. Jorge Andrade, autor dessa
trama de 1973, já havia misturado essa peça com outra: A ESCADA, e com isso, fez a novela.
Porém, na versão do SBT, os adaptadores inseriram ainda, tramas de NINHO DA SERPENTE. O
resultado não deu muito certo, pois a narrativa ficou um tanto confusa, apesar de contar com um
elenco excelente. Já na TV GLOBO, se misturou TITITI com PLUMAS E PAETÊS, e foi sucesso.
As tramas casaram entre si porque tinham um elo entre elas nos originais: o mundo da moda.

Muita gente criticou o remake de SARAMANDAIA, que trazia um elemento desgastado: o
realismo fantástico. Não se percebeu isso na época, como não se percebeu recentemente em O
SÉTIMO GUARDIÃO. A novela SARAMANDAIA, recebeu uma narrativa nova, criada por
Ricardo Linhares, em cima do que sobrou de arquivo da novela.

Ele teve que criar situações e enriquecer personagens, inclusive Dona Redonda, que no original não tinha a função importante que teve no remake. Recentemente, Ricardo Linhares revelou que já adaptou O GRITO, de Jorge Andrade, para o formato de minissérie. O sucesso de PANTANAL, já fez a Globo pensar em fazer um remake de RENASCER, que também tem uma trama atemporal.

Engana-se quem pensa que remake é uma cópia do original. É uma versão, podendo ser livremente
baseada, inspirada ou livre. A diferença entre elas? Simples: a adaptada, mantém estórias,
personagens, espaço e tempo, com fidelidade. A inspirada, mantém estórias, personagens, mas
caminho, espaço e tempo podem ser mudados. E a livre, mantém o teor da história, podendo ganhar
diversas situações e tramas novas em seu desenrolar.

O remake pra muita gente, é um pecado, uma traição. E pra outros, uma oportunidade de uma
releitura atual. Pra quem não viu o original, é uma novidade. Não há comparações… Mas terá
comparações quando daqui vinte, trinta anos, houver uma terceira versão…

Michel Luiz Castellar

Mostrar mais
Botão Voltar ao topo