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Crítica: Primeira temporada de ‘Elite’ é marcada por choques de realidade

Sim, eu terminei de assistir à primeira temporada de ‘Elite’ após dois anos de seu lançamento e acho sim válida uma crítica agora sem o burburinho do público e com uma análise calma e livre de pressão por agradar qualquer seleto grupo. Além disso, pode servir como base para aqueles que ainda não assistiram. Obs: livre de spoilers, podem ficar tranquilos rsrsrs.

A primeira temporada da série espanhola da Netflix gira desde o episódio 1, em torno do assassinato da jovem Marina (Maria Pedraza) e o clima de mistério sobre a identidade do assassino é o fio que conduz a história até o último e derradeiro episódio.

Os autores foram muito felizes na construção dos personagens e em como as vidas de todos eles se cruzam. O colégio requisitado “Las Ensinas” é o palco dos acontecimentos e reviravoltas da trama. O pontapé inicial se dá com a chegada de jovens bolsistas à instituição, sofrendo uma forte rejeição pela maioria dos estudantes “riquinhos” e que vivem uma realidade completamente diferente, porém aos poucos os personagens vão emergindo no mundo um do outro, e assim se forma um contraste onde muitos amadurecerão e outros cairão em grandes problemas.

As múltiplas abordagens conflitantes de temas reais e polêmicos são feitas de forma muito eficiente e canalizam anseios e situações que os jovens enfrentam na atual sociedade. Vou citar as situações mais fortes e polêmicas abordadas na série, como o uso de drogas para satisfazer momentaneamente e preencher um vazio causado pela pressão da família ou por outros fatores externos, ou somente para “socializar” nas festas. O trisal formado por Carla (Ester Expósito), Polo (Álvaro Rico) e Christian (Miguel Herrán) traz à tona algo muito comum nos dias de hoje, mas que salienta o quão frágeis estão os relacionamentos, principalmente aqueles fundados com base nos interesses pessoais ou envolvendo a família. O grande conflito da família muçulmana que se depara com o mundo dos ricos, completamente diferente do que eles vivenciavam se torna um dos maiores destaques na pele dos personagens Omar (Omar Ayuso) e Nadia (Mina El Hammani), dois jovens que precisarão enfrentar o conservadorismo religioso da família para poderem ser quem são de verdade, ele homossexual e ela que aos poucos se vê envolvida com o fútil Guzman (Miguel Bernardeau), que namora a patricinha Lucrécia (Danna Paola), ocorre aqui uma desconstrução interessante entre os dois, embora o romance fique mesmo guardado para a segunda temporada. Válido.

O envolvimento entre os personagens em meio aos conflitos gera um interesse muito grande no público para descobrir como será o desenrolar, tendo como pano de fundo os desdobramentos da investigação sobre a morte de Marina, que a cada episódio acrescenta uma pequena informação para nos ajudar a desvendar o mistério, e é claro o foco maior é na própria personagem e sua trajetória até o seu fatídico e sabido desfecho.

É uma série forte, com classificação de “não recomendada para menores de 18 anos” justamente pelo excesso de uso de drogas lícitas e ilícitas, excesso de palavrões de baixo calão, e conteúdo sexual com cenas explícitas do ato e nudez.

Ao longo dos 8 episódios ocorrem muitos altos e baixos na vida de todos os personagens, assim como na vida de todos nós. Algumas situações se tornam um pouco cansativas e demasiado forçadas para manter o enredo em temporadas futuras. As atuações são todas muito bem trabalhadas e nenhuma deixa a desejar, há uma entrega total dos atores.

Os personagens mais interessantes são justamente aqueles mais polêmicos, que por vezes subvertem a opinião do público e estão em constante relação de amor e ódio conosco. Marina é realmente o grande destaque, pois oscila entre várias camadas e facetas dentro dela mesma, colocando os outros personagens e até nós, os espectadores, a ora torcer a favor e ora contra. No fim se sabe que a morte dela foi algo inevitável, mas mesmo assim triste e causando grande comoção na história e em quem assiste. Uma personagem que tem uma leveza e ao mesmo tempo muito do que todo jovem tem, a rebeldia e outros conflitos da idade. Ela trouxe à tona o debate sobre o HIV e a gravidez prematura de forma muito sutil e inteligente.

marina
marina (maria pedraza), a protagonista da primeira temporada de ‘elite’ (imagem: reprodução)

Destaco ainda personagens como  Nadia, que tem um papel forte e importante na trama. Seus embates com Guzman e Lú, por exemplo, são sempre carregados de emoção e servem de aprendizado para todos que assistem.

Polo também é um polêmico personagem, que não é tão explorado nesta temporada, mas é perceptível que enfrenta vários dilemas, e obviamente vai crescer muito nas temporadas seguintes. O que eu adianto, é que ele é o mais dúbio e surpreendente da série.

Christian é um dos mais queridos do público, isso porque representa o lado pobre, que é explorado pelos colegas ricos, colocando em cheque qual é o preço do caráter, e até onde alguém vai para subir na vida, e qual as suas conseqüências (desenvolvidas melhor na segunda temporada).

O casal gay formado por Omar e Ander (Arón Piper) é interessante e circundado por diversos conflitos. Torço por eles, mas confesso que os altos e baixos (muito mais baixos, rsrsrs) por vezes acabam irritando e fica difícil apoiar, no entanto sou insistente e acho que os autores devem investir neles, mas cuidar para não cansar o público.

Por fim destaco Samuel, que apesar de não ser um personagem fácil de se gostar, é muito bem construído e apresenta uma faceta que muitos se identificam, aquele que é feito de trouxa por todos, até por quem mais ama, que não quer enxergar a verdade por mais que ela grite. É aquele mocinho purgantezinho que está sempre disposto a perdoar, mas que procrastina em tomar qualquer atitude. Eu tenho uma feição grande por ele, e creio que vai render mais nas próximas temporadas.

Elite é uma série extremamente coerente, o enredo é bem amarrado e a direção é um show. A primeira temporada se encerra da melhor forma possível. O que adianto é que o assassino provavelmente vai te surpreender, não porque é óbvio, mas porque sua relação com a vítima não é explorada e um fato isolado do final é a razão do crime. Mas foi bem coerente, e dentro da proposta. Creio que as temporadas seguintes terão um belo desenrolar após esse ótimo desfecho. Não espere final feliz, aqui é muito vida real e você vai se surpreender e emergir no enredo, vai se emocionar e se sentir parte da história, amando e odiando, se identificando ou não. Super recomendo!

Nota: 9,0/10

Veja o trailer da temporada 1:

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